segunda-feira, 31 de março de 2014

Jucazinho: a barragem que matou um povo

Andar pelas vilas, lugarejos e povoados que ficam às margens do Capibaribe entre Surubim e a divisa com Cumaru, Riacho das Almas e Frei Miguelinho, é deparar-se com um povo cheio de histórias e cultura e com problemas ambientais graves.
Em minhas andanças ontem(30/03) com meu pai Severino(Biu) do Distrito de Chéus, em Surubim, até Capivara, em Frei Miguelinho, vi muitas imagens e cenas que fizeram-me levar às lembranças do tempo de criança, quando tomava banho nas águas do Capibaribe ainda limpas, das pescarias com meu pai e amigos, dos banhos de cacimba nos poços cavados na areia do rio quando ficava seco em período de estiagem.
Em Chéus, a cena que mais me marcou foi o esgoto do distrito sendo totalmente jogado dentro do rio sem nenhum tratamento, bem como o lixo doméstico. A prefeitura, apesar de anos dessa prática ambiental errada, nunca tomou nenhuma atitude para mudar tal situação.
Mais adiante, no Sítio de Duas Estradas, a água era um pouco mais limpa e abundante, no entanto, o desmatamento da mata ciliar é uma constante para a plantação de capim e nos morros que margeiam o rio, para a criação de roçados para a agricultura familiar, o que gera desmatamento e o assoreamento do rio.
Já na Barragem de Jucazinho, maior represa do Capibaribe e a terceira maior de Pernambuco, a situação é desoladora. A água diminuiu em índices alarmantes, chegando hoje a ter apenas 30% de sua capacidade. As marcas deixadas nas margens mostram o quanto a água "baixou". O reservatório atende 15 cidades do Agreste e uma população de 500 mil pessoas.
Seguindo viagem,  no povoado de Cachoeira do Taépe, fotografei a Casa Grande, que data do século XVIII, uma construção portuguesa única no Brasil, tombada pelo IPHAN. A casa que ameaçava cair após anos de descaso, está sendo restaurada.
Em Baterias, um povoado que eu só ouvia falar em nome, mas não conhecia, embora meu pai e minha família paterna seja natural de Jucazinho e desse antigo lugarejo engolido pelas águas da barragem quando de sua construção, vimos alguns poucos bares quase sem clientes, devido a diminuição das águas da represa. Fato interessante nesse local é um antigo cemitério, construído pela população poucos anos antes da barragem. Creio que se soubessem dessa obra gigantesca que mudaria a vida de todos daquela região, jamais teriam feito o cemitério, atualmente praticamente abandonado, não fosse o nome escrito no muro e o slogan da Prefeitura de Surubim.
Finalmente chegamos ao Povoado de Chã Grande e a Vila de Capivara, em Frei Miguelinho, na divisa com Surubim e Riacho das Almas. Capivara Nova, como assim podemos chamar, foi construída próxima da represa de Jucazinho, após a destruição do antigo lugarejo que foi tomado pelas águas da barragem. Com a forte seca dos últimos anos e a diminuição das águas, é possível vermos antigas ruínas das casas que ali existiam. Moradores da antiga Coro D'Antas, outro povoado que ficava às margens do rio e que teve seu cemitério engolido pela represa, também foram transferidos para a nova Capivara, que é hoje um dos maiores povoamentos de Frei Miguelinho, com praças, colégio, igreja , calçamento e atualmente está sendo construída uma quadra de esportes coberta para a população.
Ao passo que nos deparamos com a rica cultura daquele povo ribeirinho, também encontramos graves problemas ambientais. O rio Capibaribe já não é mais o mesmo. Não apenas por ter suas águas represadas por Jucazinho e seu povo fugido para não ser engolido pelas águas que encobriram povoados e lugarejos rio acima, mas também pela forte perca de sua mata ciliar, que em alguns locais já nem existe, pela erosão das margens do rio e seu assoreamento, pela poluição da água pelo esgotos e pelo lixo jogado. Fica em nós um sentimento de nostalgia em relembrar o Capibaribe do passado, com o povo que vivia em suas margens e ao mesmo tempo, saudade do rio limpo onde tomávamos banho e algumas pessoas bebiam de sua água nos poços em período de seca.
Jucazinho mudou a história de um povo, transferindo pessoas para outras cidades e lugares, represando as águas antes correntes do rio,  e encobrindo as casas e a cultura das pessoas que ali viviam.

Texto e fotos: João Paulo Lima

Distrito de Chéus-Surubim

Praça Santa Luzia - Chéus

Igreja Nossa Senhora do Livramento - Chéus

Lixo jogado pela população em um dos riachos que desaguam no Capibaribe, em Chéus

Esgoto doméstico correndo para o Capibaribe em Chéus


Rio Capibaribe em Chéus assoreado

Rio Capibaribe em Surubim

Casas abandonadas pela população no Sítio Duas Estradas - Surubim

Desmatamento da mata ciliar em Duas Estradas



Escola Municipal fechada em Duas Estradas-Surubim


Paredão da Barragem de Jucazinho

Antiga entrada da Barragem de Jucazinho no período de sua construção

Barragem de Jucazinho

Barragem de Jucazinho

Meu pai em Baterias, local onde viveu sua infância e juventude

Capela Santa Luzia em Cachoeira do Taépe-Surubim

Cemitério da extinta Baterias


Casa Grande de Cachoeira do Taépe sendo restaurada


Eu, no local onde surgiu a história da minha famíla paterna, 
hoje coberto pelas águas de Jucazinho


Igreja da Vila Capivara - Frei Miguelinho

Fim da represa de Jucazinho em Capivara


Vila de Capivara


3 comentários:

  1. SEM PALAVRAS PARA ESSE DOCUMENTÁRIO IMPORTANTÍSSIMO. AS PESSOAS PRECISAM PRESERVAR A NATUREZA POIS É DELA QUE TEMOS TUDO DE QUE NECESSITAMOS. ABRAÇOS.........

    ResponderExcluir
  2. então era de fato um cemiterio em baixo das aguas de jucazinho ? mas nas obras ñ retiraram nada ? sempre fui curioso pra essa historia uns falam que tiraram outros falam que deixaram os corpos la mesmo agora com a seca esta voltando a aparecer de novo

    ResponderExcluir
  3. O cemitério foi coberto com uma estrutura de cimento. Algumas famílias retiraram as ossadas dos parentes e colocaram em outros cemitérios, mas a grande maioria deixou onde estava. O cemitério de Couro D'Antas ficou submerso por 18 anos nas águas de Jucazinho e agora volta à tona, devido à seca.

    ResponderExcluir